Uma casa começa com xícaras. Amarelas e seis. Devane deu enquanto geladeira conhecia cozinha. Dia começos. Caixas, homens raiva de pregos. Balde na porta da varanda espiando sofrimento dos panos de chão. Paredes brancas, bonito pendurar samambaia. Pena vista tão faltou: árvores indecisas, esquinas sem bares, prédios que nem são navios. No verdade é janela frente outras, só. Mas fazer varanda dos olhos fechados. Deixar impossível esquecer quem é. De miragem nasce coisas, cabelo, ponte acesinha, gente mesmo. Praça com mendigo de sentir pena e menino sujo de queda...Nada virar quiser, mesmo que ainda nem. Ali era era tempo dos querias. Via os irás todos. Envelhecia, voltava. Lembrava que quebrei aquela xícara na semana que vem.
1.12.09
Varanda dos olhos fechados
Uma casa começa com xícaras. Amarelas e seis. Devane deu enquanto geladeira conhecia cozinha. Dia começos. Caixas, homens raiva de pregos. Balde na porta da varanda espiando sofrimento dos panos de chão. Paredes brancas, bonito pendurar samambaia. Pena vista tão faltou: árvores indecisas, esquinas sem bares, prédios que nem são navios. No verdade é janela frente outras, só. Mas fazer varanda dos olhos fechados. Deixar impossível esquecer quem é. De miragem nasce coisas, cabelo, ponte acesinha, gente mesmo. Praça com mendigo de sentir pena e menino sujo de queda...Nada virar quiser, mesmo que ainda nem. Ali era era tempo dos querias. Via os irás todos. Envelhecia, voltava. Lembrava que quebrei aquela xícara na semana que vem.
26.9.09
Comer formiga faz bem pra vista

No meu quarto, volta das três, luz bate interessante pela janela. Exato de dar ver dança do tempo. Poeira branca cochilando em pelos de braço. Tudo de Sol. Ventinho qualquer espanta. Bom de brincar. Assustar gostoso de tão simples. Pensar que por mera perspectiva essas levezas não são prédios, países. Ali vi Deus, entendi.
Logo depois comecei. Assassinava formigas por conhecimento. Realizei mortes complicadas. Afogamentos em cola colorida, amputações. Fome. Deixar perdida tarde inteira, prender em papel e queimar. Me irritava aquele excesso de joelhos e o fato de que não gritam ou rezam terços. Vez peguei pote vidro. Enchi de açúcar, prendi várias. Guardei por duas semanas só pra ver tudo acabar.
21.8.09
Bolha

Na minha casa os objetos mudam de lugar. Álbum de fotografia do quarto colocado na sala fica na cozinha. Cadeira da varanda atrapalha corredor. Três portas não fecham. Certo dia o cinzeiro atraiu moedas. Todos os isqueiros ficam perdidos dentro dos bolsos. Há mais janelas que cortinas. Café, pão. Esqueceram o som ligado e os pratos. O casal de elefantes comprado em Ipanema mora embaixo do quadro do mostro. É um rosto bordado que acaba em vários outros. Dedos imitam cata-ventos. De longe parece um naufrágio, de perto é uma mulher aplaudindo cigarros vermelhos caídos do céu.
3.8.09
Expressionistas

É preciso criar desvio, uma linguagem capaz de se lançar para fora da língua. Vida foi reduzida em método de comunicação, e só. Baleia não é água! Homem é mais gesto que discurso. Fala é motor, não matéria da existência.
Há quem diga que letras e números nos separam do mundo. Concordo. Passei anos brincando de separar palavras de coisas. O problema é que até o raciocínio está preso dentro das palavras... Matemática viciada de expressão, não foi inventada para o que somos, mas para o que aspiramos dizer.
Eu queria mesmo era saber como o mar se chamaria se pudesse falar.
3.7.09
Bom dia

Em frente da minha casa mora uma praça que é um relógio. Velocípedes e andores rodando, rodando. Crianças aprendem e velhos desaprendem a andar. Uma pessoa levanta, outra senta. Sombras mudam de lugar. Gente segura gente. Brinquedos riscam o chão. Uma senhora fica muito tempo sem fazer movimento. Velocidade de menino. Lentidão de bengala. De vez em quando alguém cai.
Em frente da minha janela mora uma árvore que é uma multidão. Acho chique quem sabe descobrir o nome das frutas só de olhar os galhos. Eu não sei, mas em dias de chuva ela parece uma Figueira. Em dias normais é meu pai. Ele gostava de vento.
26.6.09
Açúcar

Toda noite se perdia em Lua. Chegava sujo de esquina. Mesmo assim tirei os sapatos, cobri bem. “Dexa dexa”, melhor botar lenço, abrir torneira, brincar de melado. É manhã de fazer bala de coco, não de remoer garrafas.
Pegou os potes e foi bater goma no quintal, descalça. Jogava uma língua branca quente de mão pra mão. Fazia fumaça de calor e dedos vermelhos. Depois forno e toalha lisinha na mesa. Ele comia doce quando acordava. Nunca disse viço. Um dia pegou chapéu e não voltou. Virou mil velas e mudou o significado do açúcar.
23.6.09
Casas gostam de ter janelas

Casas gostam de ter janelas em Cachoeiro. Algumas fazem vista para paredes muito bonitas. Só em cidades pequenas sabe-se admirar sacadas e reconhecer os lugares pelas árvores.
Pessoas usam linho. Logo cedo, senhores levam passarinhos para cantar dentro de padarias. Senhoras saem de casa. Jogam água nas plantas e varrem calçada. Falam de vassoura na mão enquanto suas mangueiras viram um pequeno rio no canto da rua. Brincávamos de barco de papel ali. Ainda não sabíamos bicicleta.
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